O bom padre
Há muito tempo existia em Vale do Peso um padre bondoso e exemplar.
Quando ele passava, as crianças corriam para ele beijando-lhe a mão e esperando a sua benção.
Uma noite, a horas mortas, o padre acordou sobressaltado devido à força com que alguém lhe batia à porta.
Perguntou quem era e uma voz desconhecida pediu a Extrema Unção para um enfermo.
O padre levantou-se logo, disposto a acudir aos seus deveres de sacerdote.
Assim que saiu à rua, avistou o vulto de um homem.
Depois das saudações, o desconhecido informou-o de que o moribundo não era de Vale do Peso e que estava fora da povoação,
por isso qualquer demora poderia ser fatal para ele.
Assim partiram sem sacristão.
De repente, o companheiro do padre estacou em sua frente não o deixando caminhar mais e com um lenço vendou-lhe os olhos. Confiando na Providência, o padre deixou-se guiar pelo desconhecido.
Caminhou durante largo tempo e quando finalmente pararam o estranho tirou-lhe o lenço dos olhos.
O padre achou-se num lugar desconhecido e viu um vulto de uma mulher que soluçava amargamente.
O desconhecido pediu ao padre que a confessasse, afastando-se em seguida.
O padre preparou-se então para ouvir a confissão da penitente.
Terminada a absolvição, de novo surgiu o desconhecido e de novo vendou os olhos do padre encaminhando-o até Vale do Peso.
Quando o dia aclarou, os transeuntes que passavam junto de uma antiga e já inexistente ermida ficavam aterrorizados.
A terra encontrava-se remexida, dispersa e amontoada.
Haviam vestígios de ter sido aberta uma cova. Quando o padre soube do que se passava exclamou:
- " Oremos por ela "
Sabia o padre que a morta era uma jovem formosa que cedendo aos impulsos duma ruim paixão sacrificara a sua honra.
A família, desvairada, desprezou a coitada e o seu irmão mais velho acabou por lhe traçar o destino: ser enterrada viva.
Até hoje diz-se que a horas mortas uma alma penada vagueia errante implorando misericórdia.
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